sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pra quê?

Em um lugar próximo à entrada, uma estalagmite vinha crescendo lentamente desde o solo da caverna, erguendo-se milímetro após milímetro durante séculos, construída pelos pingos d'água que caíam de uma estalactite que descia do teto. O cativo tinha quebrado a ponta desta estalagmite e, sobre o toco, colocara uma pedra na qual escavara um côncavo de pouca profundidade, a fim de apanhar a preciosa gota d'água que caia uma vez a cada vinte minutos, com a regularidade monótona de um relógio – no total, uma colher de sobremesa a cada vinte e quatro horas. Aquela gota já caía quando as Pirâmides do Egito eram uma construção recente; quando Troia foi tomada pelos gregos; quando foram lançados os alicerces de Roma; quando Cristo foi crucificado; quando o Conquistador deu origem ao Império Britânico; quando Colombo se pôs ao mar; quando o massacre de Lexington era ainda uma notícia, em vez de um detalhe histórico. A mesma gota está caindo até hoje; e ainda estará caindo, com a mesma tediosa precisão, quando todos estes marcos históricos tiverem afundado no crepúsculo da história e na obscuridade da tradição, engolidos finalmente pela espessa noite do esquecimento. Será que realmente todas as coisas têm um propósito e uma missão a cumprir? Teria esta gota caído pacientemente durante cinco mil anos a fim de estar preparada para a necessidade transitória deste inseto humano, ou terá ainda algum objetivo significativo a atingir dentro de dez mil anos?


(Mark Twain - As aventuras de Tom Sawyer)

terça-feira, 10 de julho de 2012

O problema

Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio.

(Albert Camus)



Confissão

Devo admitir que ainda fico surpreso (no sentido negativo do termo, se é que o sentido de alguma palavra pode oscilar entre pólos positivo e negativo) com a capacidade das ciências em geral, e notadamente da Filosofia, em propor falsos problemas e, o que é ainda pior, em lhes dar algum tipo de solução.

(Eu mesmo)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O fracasso é a priori

Como saber sem tentar?
Como tentar se é tão fácil
conformar-se de saída
com a ideia de fracasso?

Pois fracassar justifica
o não se ter nem sequer
admitido não querer-se
aquilo que mais se quer.

É um beco sem saída,
mas sempre é melhor que a rua:
mais estreito. Acolhedor.
Vem, entra. A casa é tua.

(Paulo Henriques Britto)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Mais uma descoberta inútil

Cientistas descobriram que pessoas otimistas vivem mais. Eis mais um motivo para se ser pessimista.

(Eu mesmo)

terça-feira, 13 de março de 2012

Por que não te matas?

Porque não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento, é por isso que preservamos a vida. A morte é por demais exata; todas as razões se encontram ao seu lado. 

(Emil Cioran)

A mecanicismo aliena do vazio

Assim como agora me visto e saio, vou visitar o professor e troco com ele algumas frases amáveis, mais ou menos falsas, tudo isto contra minha vontade, assim procede a maioria dos homens que vivem e negociam todos os dias, toda as horas, forçadamente e sem na realidade querê-lo; fazem visitas, mantêm conversações, sentam-se durante horas inteiras em seus escritórios e fábricas, tudo à força, mecanicamente, sem vontade; tudo poderia ser realizado com a mesma perfeição por máquinas ou não se realizar; e essa mecânica eternamente continuada é o que lhes impede, assim como a mim, de exercer a crítica de sua própria vida, reconhecer e sentir sua estupidez e superficialidade, sua desesperada tristeza e solidão. E têm razão, muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou.

(Hermann Hesse - O lobo da estepe)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Intuição filosófica

Tive uma intuição filosófica, mas não consigo expressá-la discursivamente. Aprendi a enrolar com o Bergson.

(Eu mesmo)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Navalha de Ockham

O princípio da navalha de Ockham postula que, dado um certo fenômeno, a explicação mais simples é a que melhor o descreve. Ora, para todos os casos possíveis de serem analisados, a explicação mais simples é sempre a mesma: o ser humano está enganado.

(Eu mesmo, com a ajuda póstuma de William de Ockham)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pérolas da humanidade

"O trabalho dignifica o homem". "Digno" não é um predicado que se pode ligar à substância "homem", muito menos se a cópula da sentença for o trabalho.

(Eu mesmo)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O problema do dever ser #2

Estava enganado. Há algo pior do que um discurso iniciado pelas palavras "tu deverias...": um discurso iniciado pelas palavras "eu acho que tu deverias...".

(Eu mesmo)

O problema do dever ser

Qualquer discurso que comece com as palavras "tu deverias..." deve ser rejeitado de antemão. Não há algo mais desagradável e enganoso do que uma pessoa tentando dizer a outra o que fazer. 

(Eu mesmo)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Princípio cartesiano

O princípio cartesiano estaria melhor formulado se fosse escrito da seguinte maneira: "Existo, logo sofro".

(Eu mesmo, com a ajuda do meu amigo Eric)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Sábias palavras

Tentar é o primeiro passo para falhar.

(Homer Simpson)

Esboço inútil

  Passava das 22:00h. Os dois rapazes perceberam que a discussão que empreendiam não chegaria a lugar algum. Nenhum dos dois poderia admitir que estava enganado, causando no outro aquele sentimento de satisfação proporcionado pela vitória no campo de batalha das ideias. Contudo, já passava da hora daquele embate acabar.
  "Fim de discussão", disse um dos rapazes, "o que eu disse é a verdade e ponto final".
  "Tudo bem, disseste a verdade", replicou o segundo rapaz com tom irônico. "Eu estou errado e tu estás certo".
  "Não te convences do que digo, mesmo admitindo que seja a verdade?", ironizou ainda mais o primeiro rapaz. "Gostaria de saber por quê".
  "Pois te digo. De maneira alguma disseste a verdade. Esta, meu caro, não existe".
  "Como não?"
  "Como não? Ora, não existindo".
  "Então defendes que não há, de maneira alguma, discurso verdadeiro?"
  "Não preciso defender essa ideia. Ela se defende por si só, apenas pela sua força".
  "Se estás tão confiante que é assim, que tal fazermos uma aposta? O vencedor paga o almoço de amanhã".
  "E quais são as regras dessa aposta?"
  "Simples! Te direi uma sentença e tu a julgarás se é verdadeira ou não", disse o primeiro rapaz com uma confiança de quem já sabia a priori que não poderia de modo algum perder.
  "Estou esperando. Dize a sentença!"
  "A sentença é esta: 'Se todo A é B e todo C é A, então todo C é B'. Dize-me agora, companheiro, não é esta sentença verdadeira?"
  "De fato, a implicação terminística é necessária".
  "Parece que amanhã eu almoçarei de graça!", disse o primeiro rapaz, tentando não demonstrar a alegria que sentia.
  "Parece que amanhã não almoçarás de graça!", disse o segundo rapaz, imitando o mesmo tom de voz de seu interlocutor. "A necessidade na implicação terminística não torna a sentença verdadeira. Torna-a, no máximo, necessária em seu interior. És muito presunçoso! Acreditar que uma regra lógica, construída por homens que não tinham mais o que fazer, tem esteio para se sustentar como verdade! Não compreendeste a vida, meu caro!"
  O segundo rapaz deu as costas e saiu. O primeiro achou graça, entrou em seu carro e foi para casa. Após uma noite de sono, nenhum dos dois se lembrava mais do que acontecera na noite anterior.

(Eu mesmo)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Culpa do Ari

Aristóteles inicia a Metafísica dizendo que "todos os homens, por natureza, tendem ao saber". Essa proposição estaria correta se a ela se seguisse esta: "todo o saber, por natureza, é enrolação". Eis a razão pela qual estudamos Filosofia até hoje: Aristóteles se esqueceu de acrescentar à sua obra um pequeno conjunto de palavras. Devemos a persistência da Filosofia a Aristóteles

(Eu mesmo)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Otimista x pessimista

Do ponto de vista etiológico, a Terra deve ser descrita da seguinte maneira: 
  1. Matéria: rocha, metal, gases e matéria orgânica.
  2. Forma: esfera imperfeita.
  3. Causa eficiente: qualquer tentativa de encontrá-la é vã.
  4. Finalidade: causar dor e sofrimento.
A diferença entre o otimista e o pessimista reside principalmente na causa final. O otimista aprendeu a enxergar o mundo de modo ilusório, venda beleza e harmonia onde não há. Essa ilusão, porém, é meramente metafísica, e o otimista, quando confrontado com o campo prático da ação, embora nunca o admita, se depara com a dor e o sofrimento. O pessimista, por outro lado, é aquele que sofre no campo teórico, pois já sabe o que vai encontrar quando encarar o mundo. O otimista tem que enrolar para disfarçar o sofrimento ao qual é exposto; o pessimista precisa enrolar para suportar a dor metafísica. No fim das contas, não há diferença entre otimista e pessimista. A enrolação os torna semelhantes.

(Eu mesmo)