(Abujamra declamando Tabacaria, de Fernando Pessoa)
terça-feira, 3 de setembro de 2013
sexta-feira, 31 de maio de 2013
A doença
Ele esteve hospitalizado durante todo o
final da quaresma e o final da Semana Santa. Já convalescendo, lembrou-se dos
sonhos que tivera, quando ainda estava com febre e delirando. Doente, sonhou
que o mundo todo estava condenado ao sacrifício de uma peste terrível, inédita
e inaudita, que marchava das profundezas da Ásia sobre a Europa. Todos deveriam
morrer, salvo alguns escolhidos, pouquíssimos. Apareceram umas novas triquinas,
seres microscópicos, que se instalavam nos corpos das pessoas. Mas esses seres
eram espíritos dotados de inteligência e vontade. As pessoas que as recebiam
tornavam-se no mesmo instante endemoninhadas e loucas. Mas nunca, nunca as
pessoas haviam se considerado tão inteligentes e inabaláveis na verdade como se
consideravam os contaminados. Jamais consideraram nada mais inabalável que as
suas sentenças, as suas conclusões científicas, as suas convicções morais e
crenças. Povoados inteiros, cidades inteiras e povos eram contagiados e enlouqueciam.
Todos estavam alarmados e não se entendiam, cada um pensava que nele e só nele
se resumia a verdade, e atormentava-se ao olhar para os outros, batia no peito,
chorava e torcia os braços. Não sabiam quem e como julgar, não conseguiam
combinar o que chamar de mal, o que de bem. Não sabiam a quem acusar, a quem
absolver. As pessoas se matavam umas às outras tomadas de alguma raiva absurda.
Preparavam-se com exércitos inteiros para marchar umas contra as outras, mas os
exércitos, já em marcha, começavam subitamente a se despedaçar, perdiam
fileiras, os guerreiros se atiravam uns contra os outros, furavam-se e
cortavam-se, mordiam-se e comiam uns aos outros. Nas cidades o alarme soava o
dia inteiro: convocavam todos, mas quem e para que convocavam ninguém sabia, e
todos andavam alarmados. Abandonaram os ofícios mais habituais, porque qualquer
um sugeria as suas ideias, as suas correções, e não conseguiam chegar a um
acordo; a agricultura parou. Aqui e ali as pessoas fugiam aos montes,
combinavam atuar juntas em alguma coisa, faziam juramentos de não se separarem
– mas no mesmo instante começavam algo inteiramente diferente do que acabavam
de combinar, passavam a acusar-se mutuamente, brigavam e matavam-se com arma
branca. Começaram os incêndios, começou a fome. Tudo e todos morriam. A peste
crescia e avançava cada vez mais. Em todo o mundo apenas alguns indivíduos
conseguiam salvar-se, eram os puros e escolhidos, destinados a iniciar uma nova
espécie de gente e uma nova vida, a renovar e purificar a terra, mas ninguém
via essas pessoas em parte alguma, ninguém ouvia as suas palavras e as suas
vozes.
(Fiódor Dostoiévski, Crime e castigo)
Deus é um industrial desleixado
“Entenda, as pessoas religiosas... a
maioria delas... pensam realmente que esse planeta seja uma experiência. É a
isso que se resumem suas crenças. Sempre há um ou outro deus se metendo nas
coisas, andando com mulheres de mercadores, dando tábuas em montanhas,
ordenando aos pais que mutilem os filhos, ensinando às pessoas as palavras que
podem dizer e as que não podem, fazendo as pessoas se sentirem culpadas por
gozarem a vida, e assim por diante. Por que os deuses não deixam as coisas como
estão? Todo esse intervencionismo cheira a incompetência. Se Deus não queria
que a mulher de Ló olhasse para trás, por que não a fez obediente, de modo que
fizesse o que lhe disse o marido? Ou, se Deus não tivesse feito Ló tão bobo,
talvez a mulher dele lhe prestasse mais atenção. Se Deus é onipotente e
onisciente, por que não fez logo o universo de maneira a ser como ele quer? Por
que está sempre consertando e se queixando? Não, há uma coisa que a Bíblia
deixa claro: o Deus bíblico é um industrial desleixado. Como não é bom de
projeto, não é bom de execução. Se houvesse concorrência, ele estaria falido. É
por isso que não acredito que sejamos uma experiência. Poderia haver uma porção
de planetas experimentais no universo, lugares onde deuses aprendizes põem à
prova suas habilidades. É uma vergonha que Rankin e Joss não tenham nascido num
desses planetas. Mas neste planeta...”
Mais uma vez ele apontou para a janela. “...não há nenhuma microinvenção. Os
deuses não dão uma passadinha aqui para consertar as coisas quando metemos os
pés pelas mãos. Basta olhar a história da humanidade para ficar claro que
sempre vivemos por nossa própria conta.”
(Carl Sagan, Contato)
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Definição
O fracasso é a conditio sine qua non do ser humano.
(Eu mesmo, com a ajuda do meu amigo Eric)
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Evangelho segundo José
José deu início a uma espécie de palestra. Nem parecia incipiente nesses assuntos, a fonte jorrava a gorgolejos estentóreos, modulava sua voz segundo regras –– inconscientes –– da mais fina oratória. Semeou a dúvida nas entranhas do globo. Fez apologia da hesitação e da vanidade de todo e qualquer ato. Engrandeceu a inutilidade como principal atributo do homem. Impregnou a matéria com incertezas. Esclareceu à turba que todos estão fadados ao fracasso, e que melhor seria não ter nascido. Disse que a infelicidade e a desgraça estão inscritas de modo indelével nos abismos de cada célula humana; que é impossível conhecer a si próprio, pois estamos envoltos em brumosos abismos e dobras que são inextricáveis. Amor e felicidade são palavras vazias de significado, e o homem é um cadáver que se arrasta sob o sol. Por fim, rogou que construíssemos templos à Ruína, e que entoássemos ladainhas à glória dos natimortos.
(Meu amigo André, Desgraça)
Nós nos contentamos em viver da inteligência alheia
–– E o que a senhora acha? –– gritou Razumíkhin, levantando ainda mais a voz. –– A senhora acha que estou a favor de que eles mintam? Absurdo! Eu gosto quando mentem! A mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos. Quem mente chega à verdade! Minto, por isso sou um ser humano. Nunca se chegou a nenhuma verdade sem antes haver mentido de antemão quatorze, e talvez até cento e quatorze vezes, e isso é uma espécie de honra; mas nós não somos capazes nem de mentir com inteligência! Mente para mim, mas mente a teu modo, e então eu te dou um beijo. Mentir a seu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia; no primeiro caso, és um ser humano, no segundo, não passas de um pássaro! A verdade não foge e a vida a gente pode segurar com pregos; exemplos houve. E hoje, o que nós fazemos? Todos nós, todos sem exceção, no que se refere à ciência, ao desenvolvimento, ao pensamento, aos inventos, aos ideais, aos desejos, ao liberalismo, à razão, à experiência e tudo, tudo, tudo, tudo, ainda estamos na primeira classe preparatória do colégio! Nós nos contentamos em viver da inteligência alheia –– e nos impregnamos! Não é verdade? Não é verdade o que estou falando? –– gritava Razumíkhin, sacudindo e apertando as mãos de ambas senhoras. –– Não é verdade?
(Fiódor Dostoiévski, Crime e castigo)
quinta-feira, 28 de março de 2013
Deus não sabe o que fez
Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado erá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.
(José Saramago, O evangelho segundo Jesus Cristo)
sábado, 16 de março de 2013
sábado, 9 de março de 2013
sábado, 2 de março de 2013
Inteligência é ornamento
É que para bem corresponder ao papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento de conhecimento e ação.
(Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil)
Imagem da condição humana
Imagine-se certo número de homens presos e todos condenados à morte, sendo uns degolados diariamente diante dos outros e os que sobram vendo sua própria condição na de seus semelhantes e se contemplando uns aos outros com tristeza e sem esperança, à espera de sua vez. Eis a imagem da condição dos homens.
(Pascal, Pensamentos)
Estética 2
Que coisa vã a pintura, que provoca a admiração pela semelhança com coisas cujos originais não admiramos!
(Pascal, Pensamentos)
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Furtiva simplicidade
Entre os poucos que conseguiram de fato chegar a uma compreensão mais adequada do mundo, nenhum mostrou tanta convicção quanto Alberto Caeiro. Em sua poesia, o poeta nos revela o que o conhecimento em geral não pode suportar: não existe um fundamento oculto para as coisas. Essa conclusão é fruto inevitável de um fato evidente: as coisas são simples, o mundo é simples; nada quer dizer nada, nada esconde nada. A razão pela qual somos ensinados (condicionados) a sustentar todo um arcabouço de noções complexas, todo um aparato de falsas ideias, reside na repulsa do ser humano pela simplicidade, na difícil tarefa de assumir que nada faz sentido. São essas atitudes humanas que ilusoriamente complexificam (até a palavra é difícil) o mundo. A teologia, a filosofia e as ciências modernas só "avançam" com a finalidade de manter oculta a simplicidade; vivem para sustentar a falsidade.
(Eu mesmo)
Filosofia e prostituição
O filósofo, desiludido dos sistemas e das superstições, mas ainda perversamente nos caminhos do mundo, deveria imitar o pirronismo de trottoir que exibe a criatura menos dogmática: a prostituta. Despreendida de tudo e aberta a tudo; esposando o humor e as ideias do cliente; mudando de tom e de rosto em cada ocasião; disposta a ser triste ou alegre, permanecendo indiferente; prodigando os suspiros por interesse comercial; lançando sobre os esforços de seu vizinho sobreposto e sincero um olhar lúcido e falso, ela propõe ao espírito um modelo de comportamento que rivaliza com o dos sábios. Não ter convicções a respeito dos homens e de si mesmo: tal é o elevado ensinamento da prostituição, academia ambulante de lucidez, à margem da sociedade como a filosofia. "Tudo o que sei aprendi na escola das putas", deveria exclamar o pensador que aceita tudo e recusa tudo, quando, a exemplo delas, especializou-se no sorriso cansado, quando os homens são, para ele, apenas clientes, e as calçadas do mundo, o mercado onde vende sua amargura, como suas companheiras, seu corpo.
(Emil Cioran)
A preguiça é uma carreira
Oh, se eu não fizesse nada unicamente por preguiça! Meu Deus, como eu me respeitaria então! Respeitar-me-ia justamente porque teria a capacidade de possuir em mim ao menos a preguiça; haveria, pelo menos, uma propriedade como que positiva, e da qual eu estaria certo. Pergunta: quem é? Resposta: um preguiçoso. Seria muito agradável ouvir isto a meu respeito. Significaria que fui definido positivamente; haveria o que dizer de mim. "Preguiçoso!" realmente é um título e uma nomeação, é uma carreira. Não brinqueis, é assim mesmo. Seria então, de direito, membro do primeiro dos clubes, e ocupar-me-ia apenas em me respeitar incessantemente.
(Dostoiévski, Memórias de subsolo)
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
O arquiteto das cavernas
A teologia, a moral, a história e a experiência de cada dia nos ensinam que para alcançar o equilíbrio não há uma infinidade de segredos; há apenas um: submeter-se: "Aceitem o jugo", nos repetem, "e serão felizes; sejam algo, e estarão livres de suas penas." Realmente, tudo é ofício neste mundo: profissionais do tempo, funcionários da respiração, dignitários da esperança, um posto nos espera desde antes de nascer: nossas carreiras são preparadas nas entranhas de nossas mães. Membros de um universo oficial, devemos ocupar um lugar nele pelo mecanismo de um destino rígido, que só se relaxa a favor dos loucos; estes, pelo menos, não se veem obrigados a ter uma crença, a filiar-se a uma instituição, a sustentar uma ideia, a pretender uma empresa. Desde que a sociedade se constituiu, os que pretenderam subtrair-se a ela foram perseguidos ou achincalhados. Perdoa-se tudo, contanto que você tenha uma profissão, um subtítulo sob seu nome, um selo sobre seu nada. Ninguém tem a audácia de gritar: "Não quero fazer nada!"; se é mais indulgente com um assassino do que com um espírito liberado dos atos. Multiplicando as possibilidades de submeter-se, abdicando de sua liberdade, matando em si mesmo o vagabundo, foi assim que o homem refinou sua escravidão e submeteu-se aos fantasmas. Mesmo seus desprezos e rebeliões, só os cultivou para ser dominado por eles, servo que é de suas atitudes, de seus gestos e de seus humores. Saído das cavernas, guardou delas a superstição; era seu prisioneiro, tornou-se seu arquiteto. Perpetua sua condição primitiva com maior invenção e sutileza; mas, no fundo, aumentando ou diminuindo sua caricatura, plagia-se descaradamente. Charlatão movido por barbantes, suas contorções, suas caretas, ainda enganam.
(Emil Cioran)
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Religare
Os programas religiosos televisivos, com todo seu arcabouço de curas milagrosas e promessas de riquezas, apresentam todos os atributos definitórios do ser humano: dominação, engano, hipocrisia e, sobretudo, enrolação.
(Eu mesmo)
sábado, 26 de janeiro de 2013
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Estética 1
Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!
(Fernando Pessoa)
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!
(Fernando Pessoa)
Assinar:
Postagens (Atom)
